29 Agosto 2011

Entrevista - mercado de trabalho

Uma das coisas mais bacanas quando se alcança o reconhecimento do que se faz é o espaço que se obtém para a exposição de seus pontos de vista sobre aspectos relacionados à profissão. É recorrente o contato de estudantes que querem compreender melhor sobre o mercado no qual em breve farão parte. E eu fico muito feliz em saber que, de alguma forma, eu tenho uma pequena parcela de contribuição na construção dessa "personalidade profissional" da nova geração.

O post de hoje é dedicado ao estudantes/récem-formados na área de criação (especificamente dos cursos de ilustração/design/publicidade/moda). As perguntas abaixo foram feitas por um estudante de design em São Paulo, cujas respostas eu gostaria de compartilhar com todos que irão ingressar logo mais no mercado ou já estão batalhando em alguma dessas áreas que mencionei acima. ;)


01. Quando começou a atuar como ilustradora profissional?
Sou designer formada pela Belas Artes de São Paulo, mas desenho desde que me conheço por gente (rs). Como algumas pessoas já sabem, o convívio com meu pai, que é ilustrador auto-didata, foi uma de minhas principais influências durante a infância, onde passei a ter contato com materiais de desenho.

Em 2008 me desliguei da Fábrica de Quadrinhos, produtora na qual trabalhei como colorista e designer. Já havia tido algumas experiências anteriores em agências de publicidade e estúdios, atuando apenas com design. Porém sentia-me incompleta atuando como designer pois, sendo a prioridade no design atender a uma demanda comercial, eu não tinha a possibilidade de explorar minhas ideias, meu próprio universo. A principal motivação para que eu seguisse a carreira de arte-ilustradora foi a possibilidade de extravasar minha personalidade lúdica.

Sou "arte-ilustradora", não ilustradora. É uma questão de definição, apenas. Via de regra, o ilustrador profissional passou por uma escola clássica e desenvolve seu trabalho tendo como base regras de proporção, anatomia, etc. No meu caso, apesar de vir também de uma escola de artes clássica, optei por expandir meu trabalho dentro uma base de criação mais intuitiva. Minhas ilustrações atendem a uma demanda comercial, claro. Mas eu iniciei minha carreira nessa área buscando explorar meu próprio universo, criando personagens particulares, inicialmente sem preocupações com tendências de mercado ou estética/proporção (os braços e pernas dos meus personagens são "fluídos", mais longelíneos). E a dedicação que tive nesse sentido fez com que minha ilustração se tornasse minha identidade, minha "marca registrada".

02. Você teve de enfrentar obstáculos e/ou preconceitos para atuar seriamente na área?
Quando decidi investir na carreira de arte-ilustradora tive de enfrentar o medo e a insegurança de "não dar certo". Trabalhava em uma produtora onde ganhava um valor fixo por mês e sabia que tornar-me freelancer implicaria em uma instabilidade financeira, principalmente nos primeiros meses. Minha família não concordou com minha decisão e tive que ter muita coragem pra enfrentar sozinha essa nova perspectiva que se abria diante de mim. Mas a paixão que sempre tive pela ilustração e a vontade que tinha de criar era tanta, que acabei me embuindo de coragem. Acho isso muito importante, válido pra qualquer situação da vida, inclusive: quando a gente acredita e decide algo, tem de ser pra valer, não pode titubear. Essa experiência eu levarei comigo pra sempre.

Nos primeiros meses, como já imaginava, tive algumas dificuldades na área, pois não conheciam meu trabalho. Precisei me dedicar bastante à prospecção de clientes, pra tornar minha ilustração cada vez mais conhecida. Era dia após dia, entrando em contato com diversos profissionais da área (diretores de arte, agências, estúdios, etc). Enquanto isso, eu desenhava. Não parava de desenhar e aumentar a produção de ilustrações. Com o tempo, fui colhendo o feedback de tudo isso. No total foram 3 meses de muita batalha (e poucas horas de sono) quando, um certo dia, recebi meu primeiro job como freela: 3 ilustrações para a revista TPM. Para minha surpresa, meu trabalho havia sido indicado para a editora da revista. Foi aí que percebi que tudo que havia feito para divulgá-lo, tinha valido a pena.

Após alguns anos de profissão (estou completando agora em outubro 3 anos de carreira), já ouvi questionamentos de algumas pessoas que, por desconhecer como fazer branding, defendem a ideia de que possuir um traço "único" implicaria em limitar seu valor estético. Eu discordo, pois acredito que esse tipo de pensamento, além de radical, ignora aspectos básicos do mercado. É importante que um ilustrador possua uma amplitude de estilos (hiper-realista, caricatura, cartoon/infantil, etc). Porém, quando se trata do trabalho de um arte-ilustrador, que é meu caso, é importante que esse profissional mantenha seu estilo peculiar, pois será exatamente esse o seu diferencial no mercado. Ter uma produção que se "repete" esteticamente é o modo desta ser fixada pelo público. Uma arte-ilustração é uma obra que possui, em cada traço, em cada linha e modo próprio de aplicação da cor, a personalidade do autor.

03. Quais ferramentas o ilustrador precisa saber utilizar pra ser reconhecido no mercado como um bom profissional?
Sinceramente não acredito que seja apenas a técnica/software/etc. que torne alguém um "bom profissional", mas sim, o nível de bagagem cultural absorvida, porque quem detém o conhecimento ainda é - e sempre será - o ser humano. (O que fazer com toda a técnica apreendida se você nada tem a dizer?). O que faz um trabalho ser "denso", cheio de camadas, é o conhecimento adquirido até então (seja de modo empírico, como viagens, trocas de experiências práticas com outros profissionais, etc; ou teórico, através de estudo/pesquisa).

Com isso, eu não quero dizer que não seja importante o conhecimento de programas de criação/edição de imagem/som, etc.; tudo o que se puder "apreender" será útil. O que quero dizer é que muitos estudantes/recém-formados acreditam, por exemplo, ser sumariamente necessário o conhecimento do Photoshop "nível jedi", e que isso, por si só, já basta. Pensar dessa forma é uma grande bobagem.

Um profissional hoje não vale mais tão somente pela quantidade de cursos que faz, tampouco vale apenas pelo número de softwares que aprendeu. Ele vale, sim, pela capacidade que tem em aplicar todo esse conhecimento de forma inovadora e prática, afim de atender a demanda existente. Em outras palavras, o profissional de hoje vale por sua raridade no mercado.

04. Como procurou promover o próprio nome para ser reconhecido no mercado (marketing pessoal)?
Logo que comecei a trabalhar como freela procurei aplicar minha arte em produtos, afim de promover meu trabalho no mercado. Entrei em contato com empresas com as quais hoje tenho parceria no desenvolvimento de posters e quadros (Urban Arts e Cartazêra) e adesivos para eletrônicos, os Cazuloskinz.

Já obtive um retorno bem bacana através das parcerias. Em 2010, através de uma parceria com o Cartazêra, a Rede Globo decorou a cenografia do quarto de uma das personagens (atriz Fernanda Souza) da novela "Tititi". (Veja o post completo aqui).

Em breve pretendo ampliar o leque de produtos, desenvolvendo também calendários, bottons e canecas customizadas.

---

Alguns já devem conhecer o consultor de empresas Waldez Ludwig. Não sei exatamente de que ano foi a entrevista abaixo (talvez 2007), mas isso não importa. O que mais gosto nessa entrevista é a lucidez e clareza com a qual o Waldez explica sobre a importância de um novo pensamento profissional frente a esse ao mercado de trabalho, independente da área de atuação. Boa entrevista! ;)



2 comentários:

Igor Tiogo disse...

Muito bom o video do Waldez. E muito bom o seu trabalho também Ana, parabéns pelos 3 anos de batalhas, continue rabiscando e deixando as coisas mais coloridas pelo mundo!

Danilo Saltarelli disse...

PQP!!!! Que demais seu blog!!!!!! Só o topo ja me fez te seguir, muito boooom!!!!